No dia 19 de julho de 2025, a comunidade Vista Alegre, na Reserva Extrativista (Resex) do Rio Unini, foi o cenário do I Encontro Municipal dos Extrativistas da Borracha. Realizado pela Cooperativa Mista Agroextrativista do Rio Unini (Coomaru) e pelo Memorial Chico Mendes, o evento contou com a participação ativa das prefeituras de Novo Airão e Barcelos, além de representantes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Michelin, de forma remota, de lideranças comunitárias e de dezenas de seringueiros do território.
“Nós conseguimos fortalecer as ações dos parceiros junto à Coomaru, o que resultou em uma importante sensibilização dos seringueiros, inclusive de outras regiões, que demonstraram interesse em se envolver e retomar a produção da borracha, inclusive em áreas indígenas e quilombolas”, declarou Jhassem Siqueira, analista de sustentabilidade no Memorial Chico Mendes.
O encontro marcou um passo decisivo na revitalização e fortalecimento da cadeia produtiva da borracha no Rio Unini, alinhando compromissos entre comunidades, setor público e parceiros institucionais. A iniciativa está diretamente conectada aos objetivos assumidos pelo Memorial Chico Mendes em contrato com a WWF e a Michelin, que incluem não apenas a garantia de compra da borracha, mas também a implementação e o fortalecimento de políticas públicas voltadas aos seringueiros.
Segundo Jhasem, um dos coordenadores do evento, a área do Rio Unini é, atualmente, a de menor produção dentro do arranjo produtivo apoiado pelo projeto. Por isso, a realização do encontro buscou sensibilizar os extrativistas para ampliar a produção, garantindo também a qualidade do produto. Foram reforçadas as boas práticas no manejo da seringa, fortalecidos os compromissos dos parceiros para assegurar a comercialização da produção e discutidas estratégias para implementação de ações concretas no território.
Carta de compromisso
O evento resultou em um conjunto de compromissos, assinados em uma carta produzida durante o evento. O Memorial Chico Mendes irá articular com o setor empresarial e o poder público para garantir mercado e preços justos, buscar insumos para distribuir kits aos seringueiros e implementar um “seringal modelo” em Vista Alegre, que funcionará como espaço de capacitação e referência em manejo sustentável. Já a Coomaru se comprometeu a ampliar o mapeamento do potencial dos seringais, especialmente junto aos povos indígenas, estimar a produção para apoiar o planejamento orçamentário das prefeituras e acompanhar de perto o trabalho dos produtores.
As prefeituras de Barcelos e Novo Airão anunciaram apoio logístico, jurídico e técnico, assumindo o compromisso de criar legislação e prever recursos para subsidiar a borracha, com valor estimado de R$ 1,00 por unidade. Também destacaram ações como aquisição de castanhas para a merenda escolar, regularização de documentos para acesso a políticas públicas e melhorias na infraestrutura para escoamento da produção.
O sucesso do evento também se deve à forte parceria estabelecida ao longo do processo. A Coomaru participou ativamente do planejamento e mobilização, enquanto a Prefeitura de Novo Airão foi fundamental na logística, cedendo alimentação, transporte fluvial e parte do combustível. O encontro também abriu espaço para uma participação mais efetiva do município de Barcelos nas ações futuras.
Importância da revitalização da cadeia da borracha
A revitalização da cadeia da borracha nativa no Rio Unini tem um papel estratégico que vai muito além do aumento da produção. Ela representa a garantia de uma fonte de renda digna para populações tradicionais, assegurando que famílias seringueiras possam permanecer no território e viver de uma atividade que mantém a floresta em pé.
Ao integrar-se ao ecossistema sem degradá-lo, o manejo da seringueira preserva a biodiversidade e valoriza a floresta como ativo econômico vivo, criando um incentivo real para sua proteção contra o desmatamento e outras pressões. Além disso, fortalece a cultura e a história da região, preservando saberes e técnicas passados de geração em geração que fazem parte da identidade amazônica.