A safra 2025/2026 de borracha nativa amazônica alcançou mais de 160 toneladas produzidas e ampliou a geração de renda para cerca de 636 famílias extrativistas, mesmo em um contexto de fortes impactos das mudanças climáticas sobre a produção na região. Os resultados refletem a consolidação da retomada da cadeia da borracha na Amazônia e a expansão do arranjo produtivo para além do Amazonas, com a inclusão dos estados do Acre e de Rondônia.
Os avanços registrados na safra estão diretamente ligados ao projeto Juntos pela Amazônia, iniciativa idealizada pelo WWF-Brasil em parceria com o Memorial Chico Mendes (MCM), o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), o WWF-França, a Fundação Michelin e a Michelin. A iniciativa tem como foco incentivar a retomada e o fortalecimento da cadeia da borracha nativa na Amazônia, articulando organizações comunitárias, parceiros institucionais e o setor privado.
“Revitalizar a economia da borracha é fundamental porque gera renda com produtos da floresta por meio da sociobiodiversidade, valoriza o trabalho do extrativista e cria oportunidades reais de desenvolvimento sustentável”, afirma Jhassem Siqueira, analista de sustentabilidade no Memorial Chico Mendes.
Natasha Mendes, analista de conservação do WWF-Brasil, confirma que é possível conciliar desenvolvimento econômico com conservação ambiental. “A iniciativa não só fortalece as comunidades no desenvolvimento da qualidade de vida local, como também é uma das principais alternativas frente às ameaças e atividades ilegais nos territórios”, declara.
A safra 2025/2026 gerou mais de R$ 2,5 milhões em renda para associações e seringueiros dos municípios de Eirunepé, Canutama, Pauini, Manicoré e Novo Airão, no Amazonas; Xapuri, no Acre; e Machadinho d’Oeste, em Rondônia. O desempenho foi impulsionado tanto pela ampliação do arranjo produtivo quanto pelo fortalecimento da organização comunitária e da governança local da cadeia.
“Ao promover a valorização da sociobiodiversidade, buscamos fortalecer cadeias produtivas que respeitam e preservam os recursos naturais, garantindo que o uso da floresta gere benefícios sociais, culturais e econômicos. Por entender que esse produto é diferenciado, oferecemos apoio logístico, recursos para a manutenção e operação das associações, entre outras ações que reforçam nosso compromisso com um desenvolvimento verdadeiramente inclusivo e sustentável”, explica Bruno Temer, gerente de Sustentabilidade da Michelin.
Inicialmente, o arranjo produtivo da borracha nativa teve sua atuação concentrada no Amazonas, sendo marcado, desde a origem, pela forte articulação comunitária e pelo número expressivo de associações extrativistas integradas à iniciativa. Atualmente, o arranjo reúne no estado as seguintes organizações: Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas de Eirunepé (ATAE), Associação dos Moradores Agroextrativistas do Rio Gregório (AMARGE), Associação dos Produtores Agroextrativistas de Canutama (ASPAC), Associação dos Trabalhadores Agroextrativistas do Município de Pauini (ATRAMP), Associação dos Moradores Agroextrativistas do Lago do Capanã Grande (AMALCG), Central das Associações Agroextrativistas do Rio Manicoré (CAARIM), Associação dos Produtores Agroextrativistas do Igarapezinho (APAIGA), Associação dos Produtores Agroextrativistas da RDS do Madeira (APRAMAD), Associação de Moradores Agroextrativistas da Comunidade Terra Preta, Associação dos Moradores Agroextrativistas da Comunidade Delícia (AMACD), Associação de Moradores Agroextrativistas Nossa Senhora de Nazaré – Comunidade Barreira do Matupiri e a Cooperativa Mista Agroextrativista do Rio Unini (COOMARU). Esse conjunto de organizações evidencia a capilaridade do arranjo no território amazonense e sua capacidade de articulação entre diferentes comunidades extrativistas.
Outro marco relevante da consolidação do arranjo produtivo da borracha nativa foi a ampliação de sua atuação para além do Amazonas, com a inserção dos estados de Rondônia e do Acre. Nessas regiões, passaram a integrar o arranjo a Cooperativa Agroextrativista de Xapuri (COOPERXAPURI), no Acre, a Associação dos Seringueiros de Machadinho d’Oeste (ASM) e a Associação dos Extrativistas do Vale do Anari (ASEVA), em Rondônia, fortalecendo a dimensão interestadual da cadeia e ampliando as oportunidades de geração de renda associadas ao manejo sustentável da floresta.
Números que demonstram impacto
Os resultados consolidados evidenciam o crescimento da cadeia da borracha amazônica. Em 2022, primeiro ano da iniciativa, foram produzidas e comercializadas mais de 65 toneladas de borracha nativa, gerando cerca de R$ 900 mil em renda para as famílias participantes. Em 2023, a produção ultrapassou 130 toneladas, com R$ 1,8 milhão gerados em renda direta, mais que dobrando os resultados do ano anterior.
Logística e garantia de mercado
A borracha produzida pelas comunidades extrativistas é adquirida pela Michelin em formato CVP, com compra garantida e preço justo. A logística envolve o escoamento a partir de Manaus (AM), com transporte fluvial até Belém (PA) e, posteriormente, transporte terrestre até Igrapiúna (BA), onde ocorre o processamento.